-------------------------------------------------------------------------------------------------O ser humano pode viver amordaçado dentro de si, ainda que sua língua esteja livre para falar. Pode viver acorrentado, ainda que suas pernas estejam soltas. Pode viver asfixiado, ainda que seus pulmões estajam abertos.
Há diversas armadilhas mentais que são construídas clandestinamente ao longo do processo de formação da personalidade humana. Elas nos aprisionam no lugar em que todos deveriam ser livres. Nenhum ser humano está livre delas, por isso nenhum ser humano é plenamente livre, seja ele uma criança ou um adulto, um intelectual ou um iletrado, um psiquiatra ou um paciente, um europeu ou um africano.
Lucidez para reconhecê-las e humildade para assumi-las são fundamentais para superá-las. Como quase tudo na psique é de mão dupla, as armadilhas da mente humana bloqueiam a capacidade de decifrar os códigos da inteligência e por sua vez a incapacidade de decifrar determinados códigos constrói essas armadilhas. Somos vítimas e vilões da sociedade, somos vítimas e vilões de nós mesmos.
O CONFORMISMO:
O conformismo é a arte de se acomodar, de não reagir e de aceitar passivamente as dificuldades psíquicas, ou eventos sociais e as barreiras físicas. O conformista amordaça o Eu, impedindo-o de lutar pelos seus ideais, de investir em seus projetos, de transformar a sua história. Não assume sua responsabilidade como agente transformador do mundo, pelo menos do seu mundo.
O conformista acredita que todas as coisas são obras do destino, já o ativista acredita que o destino é uma questão de escolha. O conformista é vítima do seu passado, o ativista é autor da sua própria história. O conformista vê a tempestade e se amedronta, o ativista vê no mesmo ambiente a chuva e enxerga a oportunidade de cultivar. O conformista se aprisiona no passado, o ativista se liberta do presente.
Existem seres humanos 100% conformistas ou ativistas? Não, porque ninguém bloqueia todas as funções da inteligência ou as liberta completamente! Alguns são magníficos para decifrar os códigos da inteligência em determinadas áreas, mas conformistas em outras e vice-versa. Alguns são ágeis para ganhar dinheiro, mas lentos para conquistar o que o dinheiro não compra.
Alguns são seguros para dirigir carros, mas frágeis para controlar suas reações. Alguns são peritos em conquistar metas profissionais, mas lentos para conquistar seus filhos, alunos, colegas de trabalho. Alguns são exímios leitores de livros, mas péssimos leitores de comportamentos.
Alguns são brilhantes para investir na sua empresa, mas péssimos para investir em si mesmos.
O conformismo é uma armadilha da mente que arrasta grande parte dos jovens e adultos. Não é catalogado como doença, mas é uma característica doentia da personalidade pulverizada em todas as sociedades. Soterra habilidades, anula dons, contrai competências, bloqueia algumas funções mais notáveis da inteligência. Alguns conformistas não conseguem nem ser conquistadores no teatro social nem, muito menos, no teatro psíquico. Não exploram nem o que as pessoas tem de melhor, nem o que possuem de mais rico. Vivem na superfície.
Júlio Malta - nome fictício, mas história real - era filho de um grande empresário. Sempre teve os melhores carros à sua disposição, cartão de crédito quase ilimitado. Freqüentava os melhores hotéis. Viajava de primeira classe nos aviões e desdenhava dos que viajavam em classe econômica. Acreditava em destino. Acreditava qua estava destinado a viver a vida de nababo, de abastado, eternamente.
Todo ser humano quer ser reconhecido, todo ser humano precisa escrever a própria história. Como tinha tudo ao seu redor, teve uma desvantagem competitiva em relação aos seus colegas que pouco tinham. Não decifrou que, se na sua juventude é aceitável a dependência dos pais, na sua vida adulta ela é uma fonte de ansiedade, baixa auto-estima, complexo de inferioridade. Não decifrou a capacidade de lutar pelo que ama. Pensou que o dinheiro comprava tudo, mas não comprou o amor da sua esposa, o respeito dos amigos, o prazer pelas simples coisas.
Não cursou faculdade. Não se preparou para assumir um trabalho na empresa da família. Condenou-se a ser um eterno dependente, um filho que vivia à sombra do pai. Pouco a pouco afundou nas drogas, se deprimiu e se tornou um alcoólatra. Até que, depois de vários tratamentos fracassados, descobriu que mais do que uma doença psíquica tinha um Eu doente, conformista, inerte, sem reação. Tinha tudo e não tinha nada. Não tinha uma história. Entendeu que um ser humano sem história é um livro sem letras. A duras penas começou a reescrevê-la. Ele precisava tratar de sua doença, mas precisava, muito mais, se reconstruir como ser humano.
O conformista é inerte e mentalmente preguiçoso, pelo menos na área em que se considera incapaz, inábil. Não exerce suas escolhas por medo de assumir os riscos. Não expande seu espaço por medo da crítica. Prefere ser vítima a agente modificador da sua história. Prefere ser amante da insegurança a parceiro do entusiasmo. Prefere enterrar seus talentos a dar a cara para bater. Os conformistas transformam fracassos em medo; os determinados transformam derrotas em garra.
O conformismo amordaça pessoas fascinantes
Se um aluno não for conformista e tiver péssimo desempenho nas provas, decifrará o código da capacidade de lutar, reagir. Ficará incomodado, debaterá idéias, melhorará sua concentração. Dedicará mais tempo e energia para virar o jogo e se superar, como Einstein que não era um aluno brilhante nos primeiros anos de escola. Mas se for conformista, formará janelas doentias que o aprisionarão e o levarão a acreditar que seu destino está traçado. Transformará mentiras em verdades, acreditará ser incapaz, limitado, destituído de inteligência, intelectualmente inferior aos seus colegas.
Quantos milhões de jovens não estão formando neste exato momento janelas traumáticas que assassinam sua capacidade de empreender, ter gana, garra, auto-estima?
Algumas pessoas que foram desprezadas publicamente nunca mais se ergueram. Outras foram abandonadas por quem amam nunca mais desenvolveram autoconfiança. Ainda outras perderam uma ou mais vezes seu emprego nunca mais acreditaram em si mesmas. Deixaram de usar ferramentas. Sentenciaram-se a nulidade. Ninguém pode asfixiar, anular e amordaçar mais um ser humano do que ele mesmo.
Tornaram-se algozes do seu ser. Rotulam-se e se deixam rotular. Alguns são sempre auto-aprisionados, achando que serão depressivos, fóbicos, obsessivos, para sempre. Não lutam desesperadamente pela sua saúde psíquica. Não percebem que são, acima de tudo, complexos seres humanos e como tal podem desenvolver a capacidade de proteger sua emoção, gerenciar pensamentos, filtrar estímulos estressantes.
Desconhecem o tesouro soterrado nas pilhas das suas pedras. Se decifrassem os códigos da inteligência, romperiam suas algemas, se reciclariam e se preparariam para uma segunda jornada afetiva e profissional.
Reis das desculpas
Os conformistas são os reis das desculpas. Sempre têm justificativas para não atuar, não treinar, não exercitar seu intelecto. Raramente duvidam daquilo que os controla e proclamam: "Não concordo comigo mesmo! Não aceito este destino!" Claro que há fatalidades que não dependem de nós e sobre as quais não temos controle. Devemos aceitá-las com humildade e serenidade, mas no que depender de nós, jamais deveríamos nos isentar de agir.
Alguns conformistas vestem o manto da humildade, mas por dentro exalam o aroma do egoísmo. Nem sempre o conformista é egoísta com os outros, mas certamente o é consigo mesmo. Não tem um caso de amor consigo mesmo, não usa todo seu potencial para executar seus sonhos e superar suas falhas.
Os conformistas parecem desapegados a preconceitos, mas na realidade são profundamente aferrados a sua visão estreita de vida e aos seus maneirismos (manias). Alguns parecem desprendidos do dinheiro, condenam o materialismo, mas no fundo o amam silenciosamente. Coloque uma fortuna em suas mãos que o monstro da cobiça que hiberna como janela killer no seu inconsciente se despertará.
Alguns são mestres dos disfarces. Dizem que está tudo bem, não assumem suas reais dificuldades. Não pedem ajuda e nem treinam seu Eu para correr riscos. Têm medo de serem criticados, vaiados, vencidos.
Reafirmo que todos nós bebemos elevadas doses de conformismos em algumas áreas de nossa personalidade. Alguns são ótimos para resolver problemas dos outros, mas são péssimos para resolver os seus.
Outros são intrépidos para estimular seus amigos a sair do lugar, mas não tem coragem de vencer sua paralisia. Preferem a falsa proteção do casulo em que se escondem a ousar viver em um mundo livre com suas nuanças e perigos.
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Créditos a AUGUSTO CURY.
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