O coitadismo é a arte de ter compaixão de si mesmo. O coitadismo é o conformismo potencializado, capaz de aprisionar o Eu para que ele não utilize ferramentas para transformar sua história. Vai além do convencimento de que não é capaz, entra na esfera da propaganda do sentimento de incapacidade. O coitadista faz marketing de suas crenças irreais, impotências, limitações. Não tem vergonha de dizer "Sou desafortunado!", "Sou um derrotado!", "Nada que faço dá certo!", "Não tenho solução!", "Ninguém gosta de mim!"
São pessoas com notável potencial, mas que o jogam no lixo. Incorporam o papel dramático e autopunitivo de que estão programados para serem fracassados. Nada é tão violento contra si mesmo.
Nem todo conformista é coitadista, mas todo coitadista é um conformista. Por que o coitadista demonstra seu complexo de inferioridade e suas miserabilidades? Porque usa sutilmente e, às vezes inconscientemente, a sua miséria para que os outros gravitem na sua órbita. Portanto, têm ganhos secundários com sua propaganda.
O conformista está sempre esperando que os outros o encorajem, o animem, o estimulem, com palavras tais como "você é capaz!", "não desista!", "você é inteligente!", "você é querido!" São ricos e não sabem. Dependem das migalhas dos outros para sobreviver, ter atençao, ser valorizado. Não decifra os códigos da sua inteligência. Deixa que os decifrem por ele. Condena-se assim a uma eterna mesmice.
Maria Lúcia tomava doze medicamentos entre tranqüilizantes e antidepressivos quando a atendi pela primeira vez. Estava doente há dez anos. Era depressiva, solitária, negativista, insociável. A cada dez palavras que proferia, nove eram para reclamar da vida. Não saía de casa nos últimos anos. Era professora, mas não exercia a profissão. Considerava-se imprestável para estar à frente de uma classe. Seu marido não ganhava o suficiente para suprir as necessidades da casa. Considerava seu marido um fraco; ele se calava porque dependia do pai dela para completar o orçamento familiar. Eram cúmplices de sua miséria sem terem consciência disso.
O pai ia diariamente cuidar da filha. Ele a elogiava, a levava aos médicos, acariciava, valorizava, aconselhava, mas Maria Lúcia não reagia. Nenhum medicamento fazia efeito. Diariamente dizia que estava passando mal, que sua vida não tinha sentido. Às vezes, tinha crises dramáticas em que batia a cabeça na parede. Seu pai era chamado às pressas para socorrê-la.
No início do tratamento, estimulei-a a sair da platéia, a entrar no palco e dirigir o roteiro da sua vida. Mas ela preferia ser uma atriz figurante. A prática do coitadismo a impedia de decifrar seu potencial intelectual. Tinha medo de ser ela mesma. Se melhorasse, quem dela teria piedade? Como poderia sugar a energia dos seus filhos, marido e, em especial, do seu pai?
Sim, ela estava realmente doente, não estava simulando, mas não sabia que havia aprendido a usar a sua doença para ter ganhos secundários, para ter migalhas de prazer e atenção. Os meses se passaram e pouco a pouco foi lapidando seu Eu para sair da platéia. Resistia em deixar de ser doente, embora conscientemente o quisesse.
Como a vida tem acidentes imprevisíveis, um dia sua mãe morreu. Tempos depois, seu pai arrumou outra esposa e em poucas semanas ela entrou em choque com a madrasta. Foi um caos. O pai se afastou da filha, o dinheiro secou, a superatenção se evaporou. E agora? Tinha de sair do útero da sua casa e se virar no útero social. Foi o que fez. A mulher coitadista decifrou vários códigos da inteligência.
Começou a resgatar seus sonhos e lutar por eles. Começou a enfrentar suas crises e seus sintomas sem apoio de ninguém. Começou a enfrentar seus fantasmas interiores. Para quem não saia da cama, era uma tarefa árdua. Mas pouco a pouco a "imprestável" profissional começou a brilhar como professora. Rompeu as algemas psicossociais que financiavam sua doença e libertou sua inteligência.
Os coitadistas não sabem que a autopiedade é uma masmorra psíquica que asfixia o prazer, amordaça o desenvolvimento das funções mais importantes da inteligência e bloqueia a excelência intelectual e emocional. Quem tem dó de si mesmo constrói seus alicerces psíquicos no vazio.
Há vários níveis de operacionalidade do coitadismo. Os coitadistas clássicos são facilmente notados, nunca mudam, não saem do lugar, são cansativos, repetitivos, pessimistas, propagandistas de sua miserabilidade. Mas há os que são ativistas, socialmente valorizados, mas tem traços sutis de coitadismo. São fortes para muitas coisas, mas frágeis para tantas outras. Não conseguem parar de fumar, beber excessivamente, serem irritados, impulsivos, viciados em trabalho. Foram derrotados por inúmeras tentativas frustradas. São injustos consigo mesmos; sentenciaram-se de que são imutáveis.
Acorrentados
Há os que lutam pelo que pensam, batalham por suas idéias, mas se acham pobres miseráveis diante de sua impulsividade, irritabilidade, humor depressivo, ou sintomas psicossomáticos como dores de cabeça, dores musculares, queda de cabelo, gastrite, fadiga excessiva. Não levam desaforo para casa, mas diariamente levam desaforo para dentro. Sabem que precisam reescrever alguns capítulos de sua vida, mas não tem força para pegar a caneta do seu Eu e o papel da sua alma. Adiam sempre.
Muitos coitadistas são autodestrutivos. Não tem um romance com a própria vida. Alguns são amados e quem os ama suplica para que cuidem de sua saúde, mas eles insistem em se autodestruir, em falar que são incapazes, em dormir poucas horas de sono, em se atolar de atividades profissionais. Só param quando estão no leito de um hospital ou no leito de um túmulo. Quando você consegue saber qual é o seu limite?
Alguns coitadistas são humanos com os outros, mas inumanos consigo mesmos. Gostam de cuidar das pessoas, mas são péssimos para cuidarem de si. São vagarosos naquilo que deveriam ser desesperados. Os coitadistas, como os conformistas, se auto-abandonaram.
Todos nós temos algumas doses de coitadismo em nossa personalidade, ainda que imperceptível. Todos nós preservamos alguns conflitos que mimamos como se fossem animais de estimação. Ninguém pode tocar nesse "animal", senão viramos uma fera. Algumas pessoas são mansas, mas quando cutucadas em certas áreas ficam irreconhecíveis.
Os coitadistas bloqueiam seu psiquismo porque são contra ter ambições, sem saber o papel fundamental delas. Ambições são importantes? Sim, algumas são legítimas e valiosíssimas. Quem pode desprezar a ambiçao de ter saúde psíquica, ser tranqüílo, feliz, sábio, solidário, ter uma vida confortável, procurar excelência profissional? Quem não decifrar o código da ambição ao explorar sua psique viverá sempre na superfície. Mas o coitadista acha que todas as ambições são malditas.
A pobre energia do desejo e a forte energia da ambição
O coitadista, bem como os conformistas, não entendem que ambição é vital para o Eu mudar as suas rotas. Não entende que a energia da ambição suplanta a energia do desejo. Desejo é uma intenção superficial. Ambição é um projeto de vida. Desejo é alicerçado pelo ânimo, ambição é alicerçada pela garra. Os ambiciosos só descansam quando atingem suas metas, os coitadistas descançam antes de entrar na raia.
Você tem ambições saudáveis ou desejos tímidos? Se tem desejo de conquistar pessoas difíceis, a energia do desejo se dissipará no calor das primeiras decepções. Mas se decifrar o código da ambição para conquistá-las, as decepções nutrirão sua força, as frustrações alimentarão sua criatividade.
Um homem tosco, rude, irritadiço, se tiver apenas o desejo de ser romântico, morrerá sendo agressivo, mas se decifrar o código da ambição do romantismo, de se refazer, de se reorganizar, poderá dar um salto. Esse código pautará sua agenda, o levará a traçar um projeto diário que controlará e o fará surpreender quem ama, dirá coisas inesperadas, fará elogios inusitados, terá gestos inesquecíveis. Regará suas atitudes com gentileza.
Um pai fechado, rígido, que é um manual de regras de comportamento e que só pensa em trabalho, se apenas tiver o desejo de conquistar e ter a admiração dos seus filhos, morrerá diante deles, não terá êxito. Mas, se decifrar o código da ambição da conquista, revolucionará sua agenda. Chocará se necessário, reconhecerá seus erros, pedirá desculpas, será mais flexível, relaxado, aberto. Brincará, se soltará e terá mais coragem de contar seus dias mais difíceis para seus filhos para que eles o fotografem em seu inconsciente como um pai humano, próximo, afetivo, instigante.
Alguns tem desejo de serem organizados, mas passa ano entra ano e continuam desleixados. Outros tem desejo de serem econômicos, de gastar menos do que ganham, mas quando vêem um novo produto, são escravos da euforia, não pensam no amanhã, gastam o que não tem.
A sociedade está tão neurótica na atualidade que as crises financeiras e as pressões profissionais podem adoecer tanto ou mais do que os traumas do passado. Os pais da psicologia se remoeriam em seus túmulos se soubessem que o útero social se tornou fábrica de pessoas doentes.
Não basta a energia do desejo. Até um psicopata tem desejo de mudanças. Quem não tem uma sólida ambição de superar seus conflitos não potencializa seu tratamento psíquico, tem chance de levar para o seu túmulo suas fobias, inseguranças, obsessões, baixa auto-estima, alcoolismo, dependência de outras drógas.
Os coitadistas e conformistas esmagam habilidades do Eu para decifrar os códigos da inteligência. Aprisionam-se nas tramas da mesmice, bebem da fonte do desejo, enquanto os agentes modificadores da sua história bebem da fonde da ambição, do manancial dos projetos de vida.
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Créditos a AUGUSTO CURY.
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